Toda vez que eu perdia um pedaço do meu sapato nas calçadas malvadas de Curitiba, levava meu instrumento de locomoção à singela sapataria do seu Pepi, sempre com o radinho ligado numa estação de Bossa Nova e afins.
-Daqui a 5 minutos está pronto, moça. Dá tempo de você ir na lotérica e voltar tranquila.
Como ele sabia que eu era viciada em jogar sem sair do seu cantinho de pregos, cola e infortúnios de mulher, eu não sei. Mas esse não é o foco da história.
Fato é que, em um mês ou menos, o sapato quebrava de novo, e lá ia eu novamente procurar os serviços do Seu Pepi.
Até que uma vez, conferi o sapato logo depois da entrega, e lá estava o motivo.
O taco do salto estava solto e mal pregado, o que fazia quebrar com facilidade.
Mas que velhinho safado, pensei.
Assim que o sapato quebrou de novo, fui lá mais uma vez, só que dessa vez não fui à lotérica, como ele sempre sugeria.
-Ué, moça, não vai fazer uma fezinha hoje?
-Não, Seu Pepi, hoje não quero ficar rica.
-Hummm.
E fiquei ali, ouvindo radinho e observando o trabalho do velho.
Ele virou o sapato, olhou, me chamou de desastrada.
Noel Rosa chorava no radinho uma canção de traição e boteco.
Começamos a cantarolar, ele perguntou se eu conhecia o Rio.
-Conheço sim.
Eu só não conhecia mesmo era o Seu Pepi, porque assim que ele pegou o martelo e começou a pregar, percebi que ele tinha Parkinson, e fazia um esforço imenso pra acertar a mira no meu sapato e deixar o taco do salto preso. Depois de algumas tentativas frustradas, ficou do jeito que sempre fica, meio solto, como sempre.
-Olha moça, ficou pronto. Está bom?
-Está ótimo, Seu Pepi, obrigada.
E todo fim do mês é a mesma coisa.
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5 comentários:
Paquinho, o mal é o de parkinson, aquele que treme. Alzheimer é o que esquece. Trocou.
bjus
Muito obrigada, Anônimo!!!
troquei mesmo! hehehe
o que seria de mim sem os meus queridos anônimos?
e ei! por que postou anônimo?
se me chamou de Paquinho, com certeza é porque eu te amo muito...só meus chuchuzets me chamam assim...
Quando a gente cuida das pessoas de quem se gosta, não é importante aparecer, mas estar sempre por perto.
Alzheimer... ...todos os dias são o seu dia de estréia na carreira de sapateiro. Não se pode pedir muito de um novato!
what a hell, eu já tirei o maldito do Alzheimer!
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