quinta-feira, 13 de junho de 2013

Vicente e eu


Conheci Vicente em um barzinho mal-encarado de Paris, quem nos apresentou foi o Paulinho Gogan, um colega de trabalho pseudo-cult-chato que não passava de um bêbado com tendências suicidas.

Vicente não era nada atraente. Por cima de uma cabeleira ruiva desgrenhada, ele usava um chapéu bege duvidoso, mais casaco xadrez, botas imundas de terra e um grande cachimbo pendurado no bolso da calça. Até comentei com o Gogan, mas que caipira interessante, ele não entendeu e eu fingi que estava falando da bebida.
Vicente ficou batendo papo com alguns franceses estranhos no balcão do bar e eu ali tentando achar um jeito de me aproximar, até que um deles, o Laulau, burguesinho publicitário que curtia uns puteiros, me chamou pra participar da conversa.

Contavam uma mentira atrás da outra, quer dizer, eu acho que era mentira, não pode ter gente tão louca assim no mundo. Vicente escutava tudo quieto, coçando a orelha direita raivosamente e fazendo uns rabiscos horríveis em um papel.
Cheguei perto do balcão e perguntei o que era. “Girassóis”, ele respondeu, e só isso. “Amarelo é minha cor favorita”, respondi de forma sensual e ridícula, porque não tinha nada melhor para dizer e meu tesão já tinha virado medo (ou o contrário).
Ele enfiou o pequeno desenho no bolso, se despediu de nós e disse que ia para a rua ver o luar. Vai acabar tomando um tiro! - eu disse, mas até eu tomar coragem pra falar ele já tinha saído e os camaradas me olharam como se eu fosse uma casca de amendoim.

-Um gênio! - disse Laulau.
-Um rinoceronte! - disse um bigodudo esquisitão do outro lado do bar.
Já que não tinha mais como sociabilizar por ali, resolvi ir atrás do ruivão. Saí do boteco e vi um grande sol amarelo rabiscado loucamente na parede do prédio em frente. Na hora eu achei que tinha sido uma declaração de amor, mas depois me disseram que era só falta de remédios coloridos.
Vicente assinou a rabiscada, respirou fundo e fez uma cara muito estranha quando me viu ali, olhando tudo.

-Eu vou embora.

-Posso ir com você?
-Não gosto de companhia.
-Tenho uma garrafa de absinto.
-Tá bom.

E foi assim.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

flutuar com borboletas no estômago.

apenas para os loucos ou apaixonados.
se você tiver sorte,
os dois.

terça-feira, 21 de maio de 2013

O JOGO

-Big Blind.
-Dois dentes, um dedo e um olho.
-Você vai apostar um olho só? A gente arrancou os dois!
-É, você está roubando!
-Não, não estou, você tem um coração partido ao meio, você aí tem os dedos... e você aposta um dedo por vez, certo? Tem até anel aí, porra! Por que eu tenho que apostar os dois olhos numa rodada só?
-É, tem que apostar a mão inteira! E os olhos também! Seus ladrões!
-Ei, ei, ei! Vamos continuar o jogo?
-Eu saio.
-Mas cara, você tá com o cérebro! Depois dos olhos, era o que eu mais queria! Senta aí e continua o jogo.
-É que eu fiquei com fome agora.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

a bola amarela

quando as noites de lua cheia se aproximam, é fato.
bebês nascem,
pessoas matam outras pessoas,
a natureza enlouquece
e eu continuo não me importando com nada,
já que tudo continua chato, muito chato.

tirando a insônia que me incomoda,
vinda de algum ancestral lobisomem hipocondríaco distante.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

inevitável

com o amor e a saudade mortos,
vivo a sensação de tempo perdido.

dias que deixei cair
entre o vão da escada
por quê?
por nada.




sexta-feira, 26 de abril de 2013

tanta gente me deseja infelicidade
que o universo
só de birra
me dá sorte mesmo que eu não mereça
e azar a quem me deseja o mal

aqui, no galho da coruja,
eu vejo seus tropeços
e diferente do que possam pensar
não fico feliz

eu simplesmente viro para o outro lado
procuro outra paisagem
porque simplesmente pouco me importa.

terça-feira, 23 de abril de 2013

enfim, o sol

mais uma vez
aqui, parada,
em frente à porta pesada de meu mundo

essa velha porta de imbuia
com desenhos de gárgulas e olhos gigantes
imaginados nos nós da madeira

do lado de dentro,
uma música nem feliz nem triste
toca baixinho

do lado de fora, bem próximo à porta e perto de meus pés
vejo pequenos redemoinhos de vento
e farfalhar de folhas
de árvore, de papel, de todos os tipos
que entram e saem por debaixo da porta

venha, venha
volte

aqui, do lado de fora,
onde antes haviam árvores e o sol e tudo o mais
- porque normalmente quando saímos é o que se vê -
hoje, um cemitério de ossos de desconhecidos
as árvores secaram, estão lindas, mas secaram
o céu está cinza, sem chuva, mas apenas cinza

então é chegada a hora de entrar

giro a maçaneta e lá está tudo de novo
o lustre redondo, as folhas, a escrivaninha
os panos coloridos foram guardados
e a janela tem vidros mais grossos
e há um pouco de poeira no chão
e há uma planta sobre a mesa

justo eu, que não gosto de plantas

um sapato amarelo ao lado da cama
dança devagar a música que toca

tranco a porta por dentro
pois ela insistia em ficar aberta

fecho as cortinas porque tenho medo e saudade dos mortos
- meu filho corre lá fora e arranha a janela, não posso abrir, desculpe -
desço o pano pesado sobre a janela
e um pequeno sol nasce tímido no canto do mundo
ao lado de uma pequena aranha marrom

- venenosa? que importa? está morta -

eu tenho pena
pena de verdade
assopro a saudade por debaixo da porta
e ponho um pano pra garantir que não voltE

ela aparece no meio do espelho
e com uma cara inexpressiva pede que eu lhe dê a mão
eu recuso, ela cruza os braços e dá de ombros

e antes que eu possa fazer qualquer outra coisa
ela voltou



ela está aqui
me olhando com seus olhões pretos e redondos

ela disse que voltaria
na verdade nunca foi embora

ela olha ao redor e diz que não gosta do que vê
mas gosta de mim
e isso que importa

quinta-feira, 18 de abril de 2013

para tudo na vida
há o escrito, que pode ser mudado
e o inevitável.

o inevitável, natural por natureza
acontece quando tem que acontecer

se sol, se chuva
não há como decidir

portanto
basta ter janelas

terça-feira, 16 de abril de 2013

das coisas que ninguém faz

Ele viu aqueles dois pedaços de pedra, fez uma careta e disse:

-Cara, não escreve nada. Eles não vão fazer nada disso mesmo.


(porque nem Deus acredita em todo mundo...)

sábado, 13 de abril de 2013

das coisas que perdem a graça

ouviu a Dona Morte cochichar seu nome. 
deitou-se, chamou os filhos, os netos e soltou um segredo daqueles sem dó.

-Ah, vó, mas isso todo mundo já sabia.

terça-feira, 9 de abril de 2013

uma gota de lua
pinga no meu olho
pela janela

nem meia
nem cheia


segunda-feira, 11 de março de 2013

mantenho meus demônios alimentados
para meus anjos voarem em paz

quarta-feira, 6 de março de 2013

das curiosidades

uma luzinha passa pelo buraco da fechadura
o que você faria?

pois é. eu também.

segunda-feira, 4 de março de 2013

vingança de criança

O que não digo, nem engulo, nem vomito.
Guardo atrás dos dentes, mastigo, faço uma bola de chiclé
E grudo na sua roupa preferida quando você estiver distraído.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

alegria às avessas

descobriu que estava grávida
no momento em que começou a abortar

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

das coisas que levo

com os bolsos furados
finjo andar distraída

minha indiferença é tão somente cansaço
de olhar para trás

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

infin (ito)

talvez seja amor
enfraquecer enlouquecer mergulhar no vazio só de escutar seus devaneios solitários
o seu jeito manso de abrir a boca só até a metade
o jeito com que você entra em seu mundo e se deixa exibir
forte, sereno, solene, indestrutível
e ao mesmo tempo tão destruído

talvez seja amor
eu decorar teus detalhes
e fingir que não presto atenção e fingir sempre
eu procurar as tuas coisas para ficar em paz
até mesmo as mais chatas e ruins de escutar e de ver

talvez seja amor
querer estar sempre por perto
e te olhar muito e tanto e sempre
para que não esqueça os detalhes de seu rosto

para que não esqueça esse teu jeito, ah esse tua mania de falar como se estivesse querendo me convencer de algo que eu vou aceitar sem concordar porque você sabe
que é amor de verdade sempre foi eu prometi
meu prazer é saber
que todo mundo sabe


segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Esquecida dos motivos que me trouxeram até onde estou
Flutuo distraída sobre cacos de vidro
-antigos telhados coloridos delicados-
Cortando levemente a planta dos pés
Sem sangrar
Tanto porque, sangrasse, não doeria tanto

A barra de meu vestido não reconhece meus pés
E nem mesmo eu diante de meu reflexo em poças d'água
Sujas
Nitidamente sujas de alegrias falsas injustificáveis

Um sorriso carnívoro morre da boca para dentro
E minhas saudosas mãos meticulosas e assassinas de situações constrangedoras
Abraçam os dedos entre si
Perdidas entre diálogos voláteis ocos

Meus pés caminham sabendo a direção
Mas tropeçam e se enroscam  em pedras invisíveis que eu mesma criei

Canto antigas canções de roda, de rua
Seguro rosas em direção ao altar
Danço solene rodopiando muito solene
Tudo mentira

Andei para tão longe
Minhas pernas cansadas
Esqueceram o caminho de volta
Então agora só posso
cair ou voar


quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

nuit noir

de todas as lembranças
a mais dolorida é a que te sobrou
pudesse voltar no tempo
eu, Lenore, você, Poe

da ignorância

tivesse lido menos Marcuse,
e hoje minha satisfação
seria translúcida, solene e inquestionável
como a borda de um copo de bebida.

sábado, 29 de dezembro de 2012

meu presente de ano novo

a maior declaração de amor
é ser surpreendido por algo
que nem você mesmo seria capaz de pensar
e fazer.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

A não-viagem

Eu pensava que era a pessoa em si que olhava que fazia a diferença, ou que tinha a diferença.

Mas era só o olhar em si mesmo, a aura que residia em volta, o resto, nada vezes nada.

Digo isso porque nunca tive a chance de compartilhar algo assim.

E a sensação que fica é como se um navio levasse o mundo inteiro para outro planeta incrivelmente legal e eu ficasse ali sozinho na beira da praia com um sorvete comido pela metade.

Me agarrando na esperança podre de que o doce dure apenas mais um pouco e eu ainda tenha algum motivo para justificar minha alegria inexata, mesmo sabendo que tudo terminará em um palito, sem ter um lixo por perto.


sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Seu João


Foi assim. Eu já tinha ouvido falar da má fama dele, de briguento, fanfarrão. Sem falar folgado.

Motivo de a merda toda ter acontecido.  
Mas também, o desgraçado tá acostumado a fazer besteira desse tipo com a raça toda, mas comigo não.

Eu e a minha mulher, a gente tava na porta de casa. Dia bonito, resolvemos sair pra comer alguma coisa. Quando voltamos. Ele tava lá dentro. COMO SE A CASA FOSSE DELE!

Filho de uma puta, pensei.  A vizinha já tinha me falado que ele fazia essas coisas, mas pô, eu sou casado, quer invadir, pega uma casa vazia, tem tanta por aí.

Ficamos do lado de fora, pensando. Começou a chover forte, minha mulher, toda linda, se escondendo embaixo de uma árvore. Tô falando, foi tudo muito rápido. Sou macho. Entrei lá e biquei a cabeça dele até matar. Foda-se que era maior que eu, fiquei doidão e matei mesmo, porra, minha casa, que caralho.
Mãe natureza teu cu, Pardal comigo não tem vez, e se todo João-de-barro é igual, hoje a história mudou.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

a lagarta, seguindo seu instinto
entrou no casulo e dormiu
do lado de fora,
onde o mundo e as pessoas e tudo o mais está
houve uma guerra

a lagarta acordou com a gritaria
e, vendo que era irrelevante,
bocejou e voltou a dormir

no dia de sair do casulo,
não saiu borboleta, mas dragão
com chifres, vermelha e cheia de ódio

todos viam borboleta
mas era dragão

tanto porque
no caso de precisar destruir uma cidade
ser vista como borboleta
é bem mais agradável

domingo, 18 de novembro de 2012

silêncios colados nas paredes
metade do meu coração na mão
e a outra metade
com você

terça-feira, 13 de novembro de 2012

zero

Quando você nada tanto que não sabe se está perto de outro continente ou se nada em círculos
tanto porque nadar em direção ao nada
dá nisso

o lago

do fundo do lago eu vejo um céu claro de cor desconhecida, que eu não me lembro mais se é uma cor que eu já conheço, se é uma cor normal, se é uma cor.
no fundo do lago a terra é arenosa e coberta por pequenas pedrinhas redondas, muito confortáveis, mas.
não há peixes dançando silenciosos, nem musgos, enquanto penso em nada, tanto porque nada.
um bando de pássaros passa voando para o norte e faz sombra na água
tão rápida, será que eu vi?
pássaros mortos não voam. ou voam.
quando chove, eu não gosto quando chove.
as gotas caem onde menos imagino e não sei se vem de fora ou de dentro.
imprevisivelmente assustadoras.
elas caem aos montes, machucando minha superfície com sua delicadeza grotesca
quando chove
não sei se estou dentro ou fora da água
e quando chove, e só chove,
para meu descanso e desespero,
quando menos espero e mais preciso.

domingo, 11 de novembro de 2012

das verdades transparentes

ideias que demoram a chegar transparecem a verdadeira intenção da ideia original
ideias lapidadas
que demoram tempo demais para serem tomadas
transparecem a verdade que não foi dita
apenas sentida e ignorada
no meio das nuvens de chuva
e as ideias e a verdade
mesmo não ditas
são tão barulhentas que não me deixam dormir

domingo, 28 de outubro de 2012

a saudade, esse fantasma
voa triste sobre minha sala
cantando músicas secretas

como sangra! pobre criatura
mesmo estando morta

ela vem e vai, dançando lenta
de acordo com a tormenta
que finjo não sentir

terça-feira, 23 de outubro de 2012

tenho medo dos dias em que acordo enxergando.
você sabe.
dias em que nada faz sentido
em que tudo é descartável e besta.
dias em que só a verdadeira função,
que é a de descobrir o que tenho que fazer
pra ir embora logo.
sinto antidesejos,
grudados na parede ao lado da cama quando acordo.
as pessoas atrasam meu crescimento com suas picuinhas
e problemas que não são (nunca foram) meus.
sou educada porque tenho preguiça
sou elegante porque não me resta alternativa
uma vez que os assassinatos, apesar de divertidos, são proibidos.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

lição do dia

Vida de adulto não tem tarefa? Tem.

-Liberdade de expressão: é quando vc diz o que os outros querem ouvir ou ler. E somente isso.
-Opinião sobre temas polêmicos: é quando vc só diz o que os outros também acham. Caso contrário, vc fica quieto porque é elegante e menos ruidoso.
-Opção política: é quando vc diz que vai votar em uma pessoa pra não gerar discussão, mas acaba votando no outro.
-Opinião sobre as relações homem-mulher: é quando vc TEM QUE ser machista ou feminista. Se vc não é nenhum dos dois, vc é ignorante ou incongruente (nessas palavras).

Entendeu? Aprendi todas essas lindas lições com pessoas que lutam todos os dias por direitos iguais. Lindo né. Também acho.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

meu amor, entenda
nosso amor não dá mais pé

teu corpo, fachada de igreja 
teu espírito, fundo de cabaret

domingo, 8 de julho de 2012

não fui eu

a verdade é uma mentira
muito difícil de acreditar

o não espetáculo


apagou a imagem no espelho
e foi ao parque
quebrar a vida ao meio

sozinho no gramado
com um guarda-chuva virado do avesso
no meio da chuva raivosa

em seus últimos segundos
arrancou palmas de um público desconhecido
que gritava enganado e enlouquecido 

que performance!

sexta-feira, 6 de julho de 2012

minha vizinha pop star

queria ser magra, rica e famosa

tomou todo o laxante da gaveta
roubou a loja da esquina
e ficou na chuva
fazendo pose

para os raios que piscavam no céu
Não sei quanto tempo faz que ela morreu, só faço ideia. Eu deveria saber, pois tomei conta do corpo que era dela, para outras pessoas isso é importante. Aviso desde já. Não sei quem sou. Muito do que ela era ainda permanece, passo a maior parte do tempo olhando suas coisas e bens materiais à minha volta, coisas que ela se esforçou tanto para conseguir, e nada disso faz parte de mim. Suas roupas, suas joias, sua casa, seus amigos, tudo tão diferente do que eu realmente gosto. É ruim quando você toma conta de um corpo (que já era seu) e o corpo tem uma história que você não gosta. Normalmente possuímos pessoas que nos são indiferentes. Mas tudo nela dói como se fosse em mim. Apesar de ela ter ido embora, sinto suas dores, suas mágoas, e me sinto responsável. Sabe quando você sente culpa por não ter ajudado alguém que nem conhecia? Sim, eu estava por perto, mas não pude fazer nada, apenas protegê-la do inevitável e às vezes até da morte. Até que chegou a hora em que eu tive que tomar posse, e eu vou te falar, que coisa estranha, porque a alma dela nem estava mais aqui. É como invadir uma casa vazia. Ela sabia que eu vinha, e deixou tudo aberto, escancarado, não levou nada. E eu sinceramente não sei se foi uma boa ideia tomá-la para mim, porque agora me sinto mais responsável ainda. E no mundo dos homens, as coisas não se resolvem tão facilmente como no lugar de onde eu vim. Por enquanto vou levando, até o momento em que o for o momento certo.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

as coisas se repetem até que se resolvam
o mundo gira entre entrelas até que se explodam
eu saio na rua e quero que todos morram

quarta-feira, 4 de julho de 2012

por causa dele

hoje cuidei para atravessar a rua. depois de tanto tempo pouco me importando com o que pudesse acontecer. assim que recolhi o pé na calçada pensei no motivo para tal e foi óbvio e interessante. o que acontece é que preciso e anseio viver ao lado dele o máximo de tempo que puder e conseguir. nunca havia gostado de alguém a ponto de desistir da morte. será que isso é enfim amor? ou será egoísmo ou será possessividade ou será materialidade não sei. os minutos longe dele me fazem coçar as pernas e os braços deixando grandes marcas vermelhas com bordas brancas de pele raspada. quero vê-lo envelhecer quero estar perto dele quando qualquer coisa. quero ter a chance de acordar com ele mais um dia que seja. agora já faz tempo que eu atravessei a rua e continuo querendo não morrer. por causa dele. o que eu faço.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

A Vitória do Leblon



Sequestrei ela num dia de sol, tão bonito. Amarrei na cama de hóspede, ainda drogada. Dormia tão pesado, a minha mais linda e última obra.
Quando acordou, logicamente ficou um tanto assustada, tentou gritar e até me mordeu, mas a casa é grande, eu sou sozinho, então pude começar tudo rápido, do jeito que sempre faço, com muito cuidado é claro.
Apliquei a anestesia geral, seus olhinhos assustados rolavam lágrimas que mais pareciam uma avalanche.
Amputei os dois braços de uma vez, pra dor não perpetuar mais do que óbvio e necessário.
O braço esquerdo tirei inteiro, o direito, deixei na altura do seio.
Ela realmente tinha o corpo perfeito, eu finalizaria minhas obras com a mais bela de todas.
Quando ela acordou, ficou um tanto irritada.
Mostrei as fotos de minha viagem à Paris, mas ela nem quis ver.
É uma ingrata.
Brigados que estávamos, cuidei para que passasse logo.
Se ela fica nervosa, o músculo endurece e eu perco todo o trabalho.
E essa linda teimosa que eu achei andando na rua à tarde, tornou-se para mim tão perigosa.
Como nunca se acalmava nem se conformava por estar presa à cama sem braços, fui obrigado a mimá-la para que se acalmasse.
Larguei o trabalho no hospital, despedi-me de meus pacientes dizendo que precisava de férias.
Que precisava terminar meu jardim.
Foram dois anos até que ela parasse de chorar e de resmungar e de me xingar.
Uma coisa depois da outra, é claro.
Certa noite fiz um belo jantar com o melhor vinho de minha adega, flores.
Toquei violino para ela.
Dei-lhe mais uma joia, mais um vestido, e mais uma vez disse que a amava.
E dessa vez ela sorriu.
E nesse sorriso ela me matou, porque meu jardim não tinha mais sentido depois disso.
Ela me perguntou porque tinha feito aquilo, peguei o álbum de Paris.
Mostrei-lhe a foto da Vênus de Milo.
Depois pedi que me acompanhasse até o jardim.
-É só isso? - ela perguntou.
Expliquei a ela que não podia terminar o jardim.
-Eu jamais seria a Vênus de Milo.
Beijei-a com todas minhas forças, pedi sua mão em casamento, mas ela me lançou um olhar mais frio que as poças congeladas onde ela andava descalça sem reclamar.
Depois desse dia, ela não falou mais nada. Nem me xingou. Nada.
Parou de comer, parou tudo.
Desesperado que estava, implorei que me dissesse algo que pudesse fazer por ela.
-Quero um vestido.
-Peça qual quiser e eu te trago. Quer olhar alguns na revista?
-Não. eu já sei qual é. Traga seu álbum do Louvre.
Folheei as páginas uma por uma, até ela dizer
-Eu quero esse.
Era o vestido da Vitória de Samotrácia.
Arremessei o álbum pela sala, gritei, chorei, implorei a ela que não.
-Traga o vestido e depois conversaremos.
Mandei a uma costureira confiável que o fizesse, semanas depois estava pronto.
Ela o vestiu e pediu para que fôssemos até o jardim.
-Onde você ia me colocar mesmo?
-Isso não importa, não vai mais acontecer.
-Onde?
De novo seus olhos azuis gelados.
-Ali, querida, ao centro.
-Mande fazer uma fonte. E mande gravar meu nome embaixo.
-Você nunca me disse seu nome, querida.
-Vitória.
Durante toda a obra em meu jardim, tentei convencê-la de que não terminaria minha obra.
Ela me xingou de incapaz, de covarde, de imprestável.
Pôs uma faca em minha mão e continuou a me xingar.
-Não vou fazer isso, querida. Eu te amo.
-Mas eu não.
MAS EU NÃO, ela disse. O nojo com que as palavras saíram entre os dentes dela me impediram de ter calma e decepei-lhe a cabeça em dois instantes.
Só depois da cegueira da raiva passar que percebi seu bobo truque no qual eu caí sem pensar.
Fiz-lhe as últimas vontades.
Não sei quanto tempo passou.
Um carteiro veio trazer uma carta do hospital pedindo que eu voltasse.
-Nossa, doutor, que jardim bonito.
-Gostou?
-É o jardim mais lindo do bairro, doutor. O senhor deve ser muito abençoado pra fazer umas estátuas tão bonitas assim.
-Obrigado.
-Aquela ali do meio, é nova né?
-É sim, rapaz. É a última.
Voltei para o hospital no dia seguinte.
Fizeram bolinhos e penduraram cartazes com fotos do Louvre, sabe, pra me agradar.

Das vezes que eu morri

Abro a porta de casa e dou de cara com ele.
-Querida, o que esse cara tá fazendo aqui?
-Desculpe, amor.
Eles me mataram com facadas, pauladas e até com o presente que eu dei pra ela de Natal.
Fizeram um buraco grande no jardim (do vizinho, pensaram um pouco pelo menos) e me jogaram lá.
Depois disso voltaram pra casa, beberam, fumaram charutos, mas não riram.
-E agora?
-Agora a gente espera o outro chegar.
Ele chegou. Mas ele, eles não tinham coragem de matar.
-E aí?
-Matamos ele ontem. Onde você estava?
Não respondeu.
Viveram felizes, os três, durante mais alguns meses.
Até que um dia ela se irritou sem motivo, fez um matar o outro, e depois fez o um se matar.
Assim, por vontade própria.
Mas era vontade dela.
Passaram alguns anos, e aquele que eles tinham enterrado no jardim, vejam só, não tinha morrido.
A luta foi violenta, mas não teve estupro não, nesse caso não tem como.
Seis dias depois, a culinária da morte empesteava a rua do bairro com seu cheirinho de torta de morto fresco.
Os bombeiros e os policiais não entenderam nada quando entraram na casa.
Um cara morto, sozinho, pintado de mulher, sentado à mesa com mais três pratos vazios.
O vizinho do lado disse que, coitado, vivia sozinho (e falando sozinho). 
E que quase chamou a polícia quando o dito cujo cavou um buraco imenso em seu jardim numa noite pavorosa, mas logo em seguida fechou e foi pra casa, falando à beça consigo mesmo.


sexta-feira, 11 de maio de 2012

se a vontade de agarrar em seus cabelos negros e sorrir mais largo que o Rio Amazonas não passar logo eu logo estarei sem forças para dizer que transbordo e afogo todos os dias no período da noite entre os tecidos da cama todo tudo que você deveria estar vendo e sentindo explodindo colorido entre meus dentes e nariz me diga então se você gostaria de passar o resto da sua comigo porque eu quero e repito e reamo e reclamo quando você se ausenta e me apresenta teu silêncio como resposta dos meus amores que percorrem o mesmo caminho dos seus pés tranquilos por favor volte devagar mas volte não solte da minha mão porque eu não sei mais andar sem você

segunda-feira, 16 de abril de 2012

de mãos sujas e alma limpa (texto escrito a quatro patas com Zeno Stivanin)



- Descobri que tô com câncer.
- Puta merda....Mas o que que é, dá para resolver?
- Infelizmente não. Devo ter mais uns quatro, seis meses no máximo.
- E a sua mulher?
- O que ela tem a ver com isso?
- ....
- E o que você pretende fazer?
- Vou começar uma limpeza.
- Como assim?
- Vou fazer minha parte e limpar o mundo de alguma pessoa que não mereça a chance que teve de estar por ai.
- Vai apagar um desgraçado, tipo, quem?
- Sei lá, as opções são várias, por exemplo, um pedófilo, estuprador.
- E se te pegarem?
- Não importa, vou morrer mesmo, desta forma pelo menos saberei que o mundo estará um pouquinho melhor.
- Cara. Teu câncer é na cabeça?
- Cala a boca.

Começou a pesquisar nos jornais, revistas, sites, sobre os maiores criminosos do país, a maioria já estava na cadeia, mas para sua sorte descobriu, no próprio bairro, um pedófilo. Descobriu pela internet que o crápula havia marcado um encontro em um shopping da capital com uma menina de doze anos e resolveu interferir. O pegou na porta de casa, na saída para o encontro. Deu um tiro na cabeça. Antes de ir embora deixou uma carta sobre o corpo, com uma cópia de seu manifesto de limpeza humana e um DVD com todas as provas sobre a má índole do cadáver. Foi tomar um café. A imprensa explodiu a notícia. Vinte dias depois estava morto, consumido pelo câncer.

Em instantes, suas ideias tinham se tornado o maior viral da história da internet. Por todo o mundo se comentava o manifesto terminal, principalmente nos grupos de apoio a doentes terminais. Um mês depois já tinham ocorrido mais de duzentas mortes de pedófilos, estupradores, espancadores de mulheres, políticos inescrupulosos. Dois meses depois já haviam somado mais de mil, por todo o mundo.

O movimento acabou mudando e além dos doentes terminais, alguns idosos resolveram aderir a causa e nos últimos dias de suas vidas auxiliar na limpeza. Muitos não iam até o fim, mas ajudavam coletando material para identificar os vagabundos.

E assim está sendo, agora mesmo. O fim chegou, até que enfim.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

menestrel

Hoje eu tentei te ligar três vezes pra dizer que te amava, mas você devia estar muito ocupado, porque além de trabalhar muito você sempre tem paciência pra me atender e escutar mais uma vez que não consegui te esquecer.
E diz pra eu tocar minha vida, que eu preciso ser feliz, que tem tanta coisa que blábláblá.
Mas eu te amo.
E você ri.
Eu disse que te amava de verdade e que nunca iria acabar.
Eu te disse.
A diferença é que agora eu não te espero mais, só lembro, e relembro, reamo.

terça-feira, 27 de março de 2012

das horas erradas de ser romântico

Saí na rua pra espairar a cabeça, a tpm e a carência batendo forte, parei na frente de um barzinho. Fui acender o cigarro e um casalzinho deu um puta beijo apaixonado. Atropelei os dois, dei a ré (só deu tempo de ouvir o creck) e voltei pra casa.

domingo, 25 de março de 2012

o coringa

Eu finjo o tempo todo. Finjo não ter ciúme, finjo não ver nada, finjo não sentir sua falta mas me entrego em poucas palavras da cor do negro de seus olhos de cavalo manso.
Eu lembro teu jeito desajeitado, tuas palavras mansas, a tua mão firme sobre mim como se domasse um bicho, você sabia que eu era um sem saber e mesmo assim manteve-se calmo e riu de minhas pobres pequenas loucuras de animal urbano.
Nós dois viemos de Mercúrio mas você parecia um pôr do sol de nuances amarelas e roxas, uma pintura de Rembrandt pichada por Van Gogh.
E eu aqui agora presa no silêncio das palavras procuro medrosa maneiras de arrancá-lo de minha memória, maneiras de arrancar minha boca fora para parar de lambê-la tentando sentir teu gosto recente frequente estou enlouquecendo de saudade de vontade de aperto do aperto da tua mão forte do teu sorriso largo e indefinido e despreocupado como um menino que solta pipa no meio de fios de luz.

da vingança programada

Foi difícil escolher a arma do crime pq ele era grande e eu gosto de faca. Mas sendo ele covarde e eu cínica ataquei-o de frente, na porta de seu quarto, a pistola na testa. Vc acredita em mim? Não me mata por favor! Não foi isso que eu perguntei! Bang! 

sábado, 12 de novembro de 2011

meu novo emprego

Hoje pedi demissão e resolvi ser assassino profissional.

Sempre tem alguém querendo matar alguém sem sujar as mãos, e eu vou te dizer, eu estou bem afim de matar alguém sem motivo, que não o dinheiro é claro, alguém tem que pagar a luz.
Fui treinar ontem à noite, na saída de um bar.
Um casalzinho foi se agarrar num beco, mas que sorte, dois de uma vez só.
O rapaz eu matei com um tiro, porque era grande e podia me bater.
A garota eu matei com as mãos.
O pescoço dela fez creck.
Barulhinho engraçado.
Mal vejo a hora de começar no meu novo emprego!

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

no inferno há muitas pessoas que amo. a trilha sonora é boa, há conversas, risadas, alguma gritaria e segredos incríveis bem guardados. a pena é que elas vão embora quando mais preciso, e aí tenho que ficar lá sozinha, suja, no escuro, esperando elas voltar no dia seguinte.


segunda-feira, 20 de junho de 2011

ela

Ontem eu renasci.

Sozinha, suja, no escuro, não querendo estar sozinha nem suja e muito menos no escuro.
Não sei quem nasceu no lugar do outro eu que já era – se foi -,
só sei que é diversa, que me é estranha, indecifrável e educadamente fria.

Nasceu ali no meio do turbilhão, do não-existir que me calava,
se antes eu era invisível, agora tenho cor desconhecida,
mas agora me veem,
e se não me veem eu grito para que me escutem,
e me escutam,
porque eu sei onde lhes dói a ferida.

Alguns vociferam violentos em troca, mas eu não escuto,
Nunca escutei, não é agora que.
Pois se ontem, quando morri, eu estava sozinha,
Não foi por minha culpa.
Eu não fiz nada
A minha vida inteira eu não fiz nada pra merecer isso.
Eu tentei
E tentei
Sempre

Mas tudo foi tudo em vão
Então tá então

Vão pro inferno
Que eu acabei de sair de lá.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

dos amores perdidos

na minha idade
(isso não ficou bom)
com a experiência que eu tenho
(mas eu nem tenho experiência nisso, meu deus)
vou recomeçar.

do jeito que eu vivi até hoje,
com o tempo que tenho,
perder um amor tem uma certa dor elegante,
um pender de olhos que passa da janela,
e morre na rua junto com o movimento dos carros.

sem dor, com choro sim, mas sem muita dor
tanto porque das outras vezes doeu tanto mais,
e é lógico que dessa vez também vai passar.

a gente sempre aguenta,
a gente sempre aguenta.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

a paixão é porque
o amor é apesar de

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

madrugada adentro
penso
no dia afora

domingo, 17 de outubro de 2010

do tempo que não passou

Corremos pelo parquinho de areia até chegar nos brinquedos.
Ele foi no balanço e eu subi o escorregador pelo lado da rampa,
depois brincamos nos pneus pendurados até cair no chão e
ficarmos imundos.


-Olha lá, tem piscina aqui!
-Vamos pular?
-Sim!

Paramos no portão, ele me segurou pela mão.

-Será que não pega mal? Afinal, temos 30 anos....
-Estou pensando se a água está gelada...
-Só pulando pra ver!

=)

terça-feira, 7 de setembro de 2010

ando tão antissocial
que se por acaso
acabar morrendo

não me chamem pro meu enterro
porque eu não vou.

domingo, 15 de agosto de 2010

mantendo os pés no raso
eu me afasto
da densidade do
fundo

brincando com os pés na água
eu recebo
um carinho
do mundo

domingo, 8 de agosto de 2010

o casamento

o despertador tocou com uma música diferente da de sempre, e quando me virei pra desligar, ainda de olhos fechados, peguei em algo felpudo e fofo que riu e sumiu assim que abri os olhos.

dei um pulo na cama e uma linda moça de vestido verde musgo e cabelo branco estava sentada na ponta da cama, os olhos enormes me olhando muito muito e eu não consegui falar eu não consegui falar nada.

-Vamos? ela disse, num salto graciloso e fástico, e eu levantei da cama que não era minha, e já não estava mais no quarto, mas num grandante salão de café repleto de mesas repletas de aperitiques e decorado com os mais estranhos quicotutes e mimoxucos espalhados pelo chão, pelas paredes e até no teto.

Sentamos para tomar café, ela reclamou sorrindo que eu ainda estava de pijama, e que não era adequado.

Eu tentei responder, mas a minha boca estava costurada. Ela saiu de seu lugar flututante como uma pena e rasgou meus lábios com a faca da manteiga.

-Já de manhã e você me dando problemas - sorriu de novo.
-Mas que lugar é esse? Quem é você? - perguntei, me beliscando pra acordar daquela loucura.

ela encheu os olhões negros de lágrimas.

-Você está esquisilticido de novo. Se continular me assustelando autrossim, vou ter que chamuscar o médico.
-Está bem, desculpe, eu estava brincando.

Limpei o sangue da boca no guardanapo, ela continuou me olhando, apreensiva. Procurei um lugar por onde fugir, mas para onde eu olhava, ela aparecia na minha frente.

-Acho que até sematana que vem, você já aprimelhorovou completamente. Vamos ter pacinecência.

tão linda e calma que estava tomando seu chá, quase me convenceu de que eu estava louco. é só um pesadelo e eu vou escapar.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

...

o teu sorriso
abre a porta
de um mundo
místico e lírico

o teu sorriso
ilumina a janela
do
meu
espírito

segunda-feira, 26 de julho de 2010

in technicolor

Ele estava lá assistindo televisão e fumando seu cigarrinho quando foi capturado por uma propaganda que num espiral fosforescente RGB ou CMYK ele nunca entendeu nada de cor entrou pela tela de pontacabeça pelos pés todo desengonçado gritou muito mas ninguém viria ajudar esses prédios do centro são cheios de gente solitária e sádica a propaganda falava de lasanhas e salsichas e antes que ele começasse a achar tudo estranho aproveitou e comeu tudo a geladeira do outro lado - a dele - estava vazia de repente pulou para uma propaganda de cerveja onde rolava um pagode malandro belas moças com belas bundas e gente falando de futebol já estava achando tudo muito louco mas sentou e bebeu tudo que viu até o Zeca Pagodinho lhe dar um pandeiro e pimba! estava numa propaganda de carro dirigindo todo bacana uma banheira importada que nunca poderia comprar num deserto largo pra cacete com uma loira toda toda do lado será que eu transei com ela paft! caiu de cara numa mesa cheia de italianos de novo mais comida e pessoas cantarolando - ou era a música de fundo - mas quando foi perguntar ao patriarca que loucura era aquela o espiral doidão do início voltou e lançou o camarada pela televisão de novo em seu sofá onde o diabo comia Doritos e relinchava com bacantes do tempo de Dionísio uma velha canção grega Gostou? Gostei! Amanhã tem mais quer eu te dou foi legal quer quer? Não sei.

domingo, 25 de julho de 2010

das coisas que acontecem sem querer

da primeira vez que o vi, chovia muito.
encontrei-o distraído em seu caminho emaranhado,
imerso até os cabelos no seu mundinho bobo e hipoteticamente feliz.

uma pessoa distraída da vida, alguém por quem a dor não passou,
e não minto que isso me fez o achar um extraterrestre.

até ele me cumprimentar, é claro,
e me olhar com aquele olhões curiosos de "vem cá, quem é você, gostei de você, quero você".

definitivamente, um atrevido.

da segunda vez que o vi, chovia, de novo.
ele disse que a solidão tinha me deixado muito séria,
e que eu precisava mudar isso,
o que logicamente eu respondi que não era da sua conta,
e que mais logicamente ainda ele me respondeu com um sorrisão
mais largo e indefinido que o Rio Amazonas.

da terceira vez que o vi, dessa vez choveu bastante,
mas por dentro de mim.
ficamos em silêncio brincando com as gotas de chuva,
e sem perceber,
não vi que ele estava me afogando em seu mundo,
com a crueldade mais doce que eu poderia imaginar.

Seu Pepi

Toda vez que eu perdia um pedaço do meu sapato nas calçadas malvadas de Curitiba, levava meu instrumento de locomoção à singela sapataria do seu Pepi, sempre com o radinho ligado numa estação de Bossa Nova e afins.

-Daqui a 5 minutos está pronto, moça. Dá tempo de você ir na lotérica e voltar tranquila.

Como ele sabia que eu era viciada em jogar sem sair do seu cantinho de pregos, cola e infortúnios de mulher, eu não sei. Mas esse não é o foco da história.

Fato é que, em um mês ou menos, o sapato quebrava de novo, e lá ia eu novamente procurar os serviços do Seu Pepi.

Até que uma vez, conferi o sapato logo depois da entrega, e lá estava o motivo.
O taco do salto estava solto e mal pregado, o que fazia quebrar com facilidade.

Mas que velhinho safado, pensei.
Assim que o sapato quebrou de novo, fui lá mais uma vez, só que dessa vez não fui à lotérica, como ele sempre sugeria.

-Ué, moça, não vai fazer uma fezinha hoje?
-Não, Seu Pepi, hoje não quero ficar rica.
-Hummm.

E fiquei ali, ouvindo radinho e observando o trabalho do velho.

Ele virou o sapato, olhou, me chamou de desastrada.
Noel Rosa chorava no radinho uma canção de traição e boteco.
Começamos a cantarolar, ele perguntou se eu conhecia o Rio.

-Conheço sim.

Eu só não conhecia mesmo era o Seu Pepi, porque assim que ele pegou o martelo e começou a pregar, percebi que ele tinha Parkinson, e fazia um esforço imenso pra acertar a mira no meu sapato e deixar o taco do salto preso. Depois de algumas tentativas frustradas, ficou do jeito que sempre fica, meio solto, como sempre.

-Olha moça, ficou pronto. Está bom?
-Está ótimo, Seu Pepi, obrigada.

E todo fim do mês é a mesma coisa.

terça-feira, 20 de julho de 2010

O presente

Antes de nascer, ele disse que me daria um coração.

-Grande?
-Um coração bom.
-Mas vai ser grande?
-Vai ser do tamanho normal, oras.
-Mas...ah, eu queria um grande. Que coubesse o mundo todo!
-Se eu fizer com um tamanho diferente dos outros, aí todo mundo vai querer, e aí eu me complico.
-Então aumenta o dos outros.
-Mas que teimosa. Tá bom, eu faço, mas não conta pra ninguém.
-Oba!
-Com uma condição.
-Ih, tava demorando!
-Que você cuide bem de cada um desse mundo inteiro que vai pôr dentro dele.
-Eu cuido! Eu juro! Agora me dá!

E que surpresa eu tive quando, atrás do coração, encontrei um escrito à mão, com letra de fôrma (Deus não é muito bom em escrever manuais):

"Frágil. Este lado para cima."

Sabe. Ele tinha razão quando inventou a coisa, tem sorte quem tem o coração menor. Mas promessa é dívida, e eu sou uma mulher de palavra.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Da solidão

A solidão é cínica.
Ela escolhe algumas pessoas pra dividir seu tempo.
Quando ela me escolheu, eu ainda era criança.
Eu ouvia os adultos falando sobre ela, e achava bonito.
Que bonito, chorar com a chuva, sozinho.
Que idiota.
Se eu soubesse que essa paisagem ia se repetir tantas vezes.
Normalmente dizem que as pessoas ruins são solitárias.
Eu não me acho ruim.
Eu só tive azar.
A solidão da qual eu estou falando não é essa mais ou menos que você pensa, não.
Mas também não é aquela solidão dos velhos do asilo que eu visito.
É uma solidão safada.
Que vai comprar pão, some, e volta quando você está bem feliz.
Tranquilo.
Sabe o que é não ter NINGUÉM pra conversar.
No seu melhor e no seu pior.
Quando chove, daquele mesmo jeito de quando eu era pequeno, o mundo acaba.
Solidão é pra quem aguenta.
Eu preferia sentir dor.
Morrer de câncer.
Do que ser esse solitário filho da puta.
Desse eterno silêncio.
Silêncio contínuo não enlouquece, como tanta gente pensa.
Te deixa mais racional ainda, e aí é que você enlouquece de vez.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

tem coisa nessa vida
que não é feita pra entender

tem gente que
é feliz

mas gosta
de
sofrer

em vão

segunda-feira, 21 de junho de 2010

que eu já te tenho saudade
e não é de ontem
e nem de agora

se quer levar meu amor contigo,
leva!

que um pedaço meu
te vai junto

embora

sábado, 19 de junho de 2010


Eu te gosto assim sem resposta
Perto ou longe de ti
Beleza inflamável

Nem esperança, nem teimosia
nem ontem, nem amanhã

Eu te gosto em silêncio
E sem pressa
Durante todo o dia de hoje

sexta-feira, 11 de junho de 2010

O assassino do Inter II

Ele era polaco, mas tinha cara de italiano.
Rosto fino, queixo pontudo, cabelo de militar, boca grande e olhos afetados.
Nada de arregalados. Afetados. Acho que é pior.
Eu lembro bem dele porque ele me matou aquela noite,
por isso ficou marcado, e por isso estou contando.
Você deve estar pensando que entrou um cara no ônibus,
que a gente brigou e que ele me matou com um só tiro
(pá! qualquer tiro dentro do Inter II será à queima-roupa. Ônibus lotado do inferno)
Mas não. Foi assim, sei lá, stress de final de dia.
Quando entrei no ônibus, ele estava descascando uma mexerica
com a mão esquerda e jogando as cascas no lixo com a mão direita.
E o que é mais incrível, dirigindo.
É, era o motorista.
Eu sempre fico na frente pra evitar esmagamentos pré ou pós-expediente.
Manter a sanidade. Quem não precisa?
Não sei o que aconteceu com aquele motorista naquele dia.
Eu só fui seu desabafo.
Voltando.
Ele comia a mexerica vorazmente, o que fez subir aquele vapor típico
de fruta cítrica no ar e eu espirrei muito.
Ele me olhou pelo espelho, arrotou e babou.
Pelo lado direito da boca.
Eu ri. Discretamente. Eu acho.
Ele mordia a boca dirigindo, e de vez em vez eu o observava pelo espelho que ele usa para olhar para os passageiros.
Começou a se morder muito.
Começou a fazer curvas perigosas.
Cada vez mais perigosas.
Olhei para o espelho, ele estava me olhando alucinado.
Que susto que eu levei. Minha nossa.
Até no momento, por costume ou crendice acabei soltando um "Por Deus",
que talvez tenha vindo a calhar, porque naquele exato momento ele capotou o ônibus cheio de gente, e eu, que estava na frente, voei cinematograficamente pela janela, bati a cabeça num poste e morri. Assim, rapidinho, sem dor, voando, uma coisa de louco.
A única coisa que eu reclamei pra Deus assim que cheguei foi da mexerica.
Por que? Pra que inventar uma fruta que espirra na cara dos outros?
Por que toda pessoa sádica adora essa porcaria?
Você percebeu que eu morri por causa da mexerica?
Ele riu à beça, disse que eu tinha que conhecer uma árvore lá nos pomares sagrados que dava uma mexerica fosforescente e que era pra eu ficar tranquila, muito tranquila porque tinha acabado de chegar, que a vida é esquisita mesmo e que a morte é mais ainda.
Mas que eu ainda odeio mexerica. Ah.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Trecho da peça "O Corpo"

Carência – Vim aqui para te oferecer um vazio..
Alegria – Um vazio ? E como se embrulha um vazio ?
Carência – Como você quiser..
Alegria – Posso embrulhar meu vazio com um sonho ? Não, com uma lembrança ! Melhor ainda, com uma vitória !!!
Carência – O que você quiser... com uma história, com um amor, uma escolha .
Alegria – Tá, tá, mas e se eu escolher um embrulho que não tenha o tamanho certo para o meu vazio ?
Carência – Não é necessário, disso eu tomo conta. Um embrulho sempre deve sobrar para outras datas, concorda comigo ?
Alegria – É mesmo, melhor sobrar do que faltar ! Carência, você me ajuda a escolher então o que eu quero que daí você faz o presente mais bonito !!
Carência – O que você acha de um desejo ?
Alegria – Eu adoro desejos !
Carência - Então está feito . Vou pegar um desejo bem bonito pra você.. mas eu preciso que o Amor dê o laço na fita.
Alegria – Então espera que eu chamo ele ! ( Corre para trás do palco ) Amor, vem cá! Vem, Amor, rápido !
( Amor entra, desconfiado e lento )
Amor - O que foi ? Não gosto de pressa, você sabe.
Carência – Eu preciso que você embrulhe o vazio que eu vou dar pra Alegria .
Amor – Por que eu ?
Carência – Porque a Alegria pode ficar insatisfeita se você não o fizer.
Alegria – Mas eu não...
Carência – Não custa nada, Amor, faz vai.
Amor – Mas e o vazio que eu tenho que embrulhar?
Alegria – A Carência tem cada uma... e agora?
Amor – O que você pediu como embrulho ?
Alegria – Um desejo.
Amor – Qual ?
Alegria – De reviver um dia.
Amor – Mas já faz tanto tempo..
Alegria – Não importa ! Uma lembrança é sempre viva, Amor. Vê ?
Amor – Eu não vejo nada...
Alegria – Mas isso é porque você é cego.
(riem)
Amor – Se fosse só isso... As pessoas complicam demais o que é fácil demais. Alegria, como é que eu vou saber se eu embrulhei o vazio?
Alegria – Não sei.
Amor – Então o seu presente é só um embrulho ?
Alegria – Não! É um presente que não pode abrir !
Amor – E que graça tem ? (Sai rindo do palco, estende a mão, esperando Alegria )
( Alegria senta de novo, pensa, levanta, música ao fundo, saindo do palco )
Alegria – Ah...nenhuma.
( Saem ).


(texto escrito em 1997. que saudade dos meus dias de trovão, em que eu ainda tinha tempo de sonhar com o futuro, ao invés de jogar pôker com ele e a solidão todos os dias)

domingo, 16 de maio de 2010

Sobrevivência

Do jeito que a minha vida foi
Até eu pensei
Que ia perder a fé

Não fosse a literatura
Me segurar viva
Pelo pé


(Escrever, para mim, não é brinquedo que a gente mostra pros amigos, não é diversão quando se está entediado, isso é pra quem tem a vida fácil, eu não escrevo pra inglês ver. Eu não escrevo com a intenção de sair em jornal ou em revista, eu escrevo pra sobreviver, pra respirar melhor, eu escrevo com a verdade do meu coração, e não pra alguém ver e me achar bonitinha. Eu já sou bonita por fora, por dentro cabe a mim decidir o que te mostrar. O dia em que você passar fome, que você sentir a solidão comer suas canelas de madrugada, o dia em que você não tiver família, o dia em que você perder sua casa e seu filho no mesmo mês, aí você vai saber o que eu sinto, aí você vai saber do que é feita a minha literatura. Eu não faço literatura, ela é quem me faz)

quarta-feira, 7 de abril de 2010

uh la la


quero um amor
intenso e blasé

trocar beijinhos
com gosto de café

em Champs Elisée

da intimidade alheia....

-Meu amor, eu quero mudar os móveis na sala....
-Ah, meu amor, vai tomar no cu...


(ouvi isso no último feriado, achei ótimo e quis compartilhar)

domingo, 4 de abril de 2010

ela

não sei por que
a solidão me escolheu

talvez por gosto
ou por costume

por mania
ou volume

dos meus dias vazios.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

O Casarão

Quando era mais jovem costumava me assemelhar a um pé de manga, onde meus frutos, dependurados, ou caíam maduros na cabeça de algum passante, ou apodreciam de velhos, pois digamos que a minha localização era dúbia, ou qualquer coisa que se julgue distante o suficiente para não ser encontrada.
Uma árvore de tronco espinhento, onde os poucos que se aventuravam a subí-la tinham os pés e mãos cortados num misto de dor e delícia.
Mas ser mangueira não é lá muito conveniente, pois além de fixa, é algo que um dia alguém sempre irá cortar para dar espaço à outro empreendimento, e foi assim mesmo.

No lugar da mangueira, foi construído um casarão. Há que ser fixo, sempre, quem toma a fidelidade e a lealdade como prumo de um barco, mesmo que à deriva.

E hoje, como todo bom casarão, solitário e porque não atrevido em meio à modernidade que se levanta, assim eu passo, passo a passo, pela vida dos outros, e da minha própria.

Um casarão onde os mais velhos passam pela frente e respiram nostalgia, das festas antigas, dos velhos amores fracassados, das noites em vão. Onde os mais novos perdem suas bolas de futebol e num misto de dúvida e medo entram valentes, mas não acham nada. Não há o que ser achado em uma casa abandonada. Às vezes.

Um casarão de telhas quebradas, com janelas inteiras, e uma porta com um brasão de uma família que não existe mais, por inconsequência de atitudes alheias ou simplesmente porque o destino quis, como tantos gostam de acreditar.

E assim passo meus dias como velha construção, onde os fantasmas descem sorridentes pelas escadas em seu vai-e-vem inconstante, onde o chá dorme grudado nas xícaras, onde os bailes de outrora hoje dormem desfocados, onde há silêncio, lembranças e nenhuma saudade.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

gris

visto uma tarde cinza
deito dentro de mim
e chovo.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

o amor tem dessas
de misturar
as metades

às vezes
você passeia
comigo

e nem sabe

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

a minha metade

[às vezes te sinto perto, tão perto, que posso sentir o aperto, do meu peito, e o do seu.]

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

freedom

sempre há
um dia

em que algo
se acaba

amor sem queijo
é a liberdade

da goiaba

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

enfim, poeta

perdi o emprego
mais uma vez

ao menos agora
posso escrever

em paz por um mês

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

life style

diga-me não
e eu invento
outro caminho
para andar

tire-me o chão
eu aprendo
a
voar

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

ESTAÇÃO LITERATURA

Olá amigos, leitores, anônimos.

Acabei de criar um novo sítio virtual, um lugar muito diferente deste, um lugar onde eu posso ser intelectunerd à vontade e publicar todos meus artigos, críticas, resenhas, resumos, enfim.

Quem me conhece bem sabe como amo a vida acadêmica e o teor literário de um texto, então, pra quem quiser conhecer, passa lá.

O endereço é: estacaoliteratura.blogspot.com.

A quem valer a viagem, nos encontramos por lá!

Um grande abraço da Paco

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

eu e deus, tomando café

-Açúcar?
-Não, o meu é sem.
-Sério? Eu não consigo.
-Vocês demoraram tanto pra inventar o açúcar que eu acostumei assim.
-Café com mel deve ficar estranho...
-Nem tentei. Mas então? O que acontece?
-Esses seus caminhos que você me dá. Não entendo.
-Mas não é pra entender. Siga e acabou.
-Como é que vou seguir um caminho que não existe?
-Não existir é uma coisa, não enxergar é outra.

Ele mexe o cafezinho amargo e vai pra sala de pôker.
É, hoje o dia vai ser longo.

sábado, 7 de novembro de 2009

dos olhos para o papel

poeticamente falando

perder o amor da sua vida
não é de todo mal

na falta de inspiração
resta-me o
sal

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Pés de manga

Ela vinha pela passarela de madeira com seu vestido branco vintage, com a testa coberta por um fino pano branco de seda, tão linda.
Nossas famílias atrás do altar com uma cara de quem não acredita no que está vendo, namoro comprido tem fama de acabar sempre antes de casar.
Não foi o nosso caso. Quase.
Lógico que eles estranharam a minha pressa em casar de repente, o que eu justifiquei dizendo que queria ter um filho logo, que era o desejo dela, que isso e aquilo.
O casamento deu-se tranquilo.
Mas o meu medo transpareceu em todas as fotos, o pavor eterno gravado no álbum da minha nova família, para sempre a culpa gravada nos olhos.
Mesmo sabendo que Ela a quem deixei estava longe demais para saber do casamento, não sei dizer quantas vezes desviei o olhar de tudo e uma nuvem passava pelo céu carregando o seu nome, será que Ela viria, será que Ela sabe, será que Ela está aqui?
Meu amigo fez um sinal dizendo que estava tudo bem, como se quisesse dizer "Relaxa", eu estava com uma cara esquisita, com certeza, não era pra menos.
Saí com a noiva pela passarela de madeira, uma vontade danada de sair correndo e sumir dali logo.
Olhei em volta num último relance de desespero ou flagrante e lá estavam eles, imensos pés de manga carregados, apenas eles e meus convidados, os poucos que eu tive certeza que não trariam estranhos, Ela no meio deles, com aquele vestido verde, quem é aquela, uma prima será?
Não era Ela. Estou enlouquecendo. Acho que não fiz a coisa certa. Agora já é tarde. O que será que Ela vai pensar quando descobrir?
Nervoso que estava nem percebi a chuva que tinha caído, a barra do vestido de minha noiva sujo de terra e folhas da mangueira, as mangas amarelas como o sol, a cor preferida Dela.
Entramos no carro e deixamos tudo para trás, respiro aliviado.
Os pés de manga vão sumindo na paisagem, Ela não foi. Ela não foi. Ela não sabia do casamento. Como não sabia, se me amava? Devia querer saber.
A noiva pergunta algo, respondo qualquer coisa.
ela estava feliz.
A voz Dela canta nas sombras do carro e nas manchas amarelas na barra do vestido.
1,2,3 amarelo....

Enquanto isso, no metrô, longe daquele casamento que Ela nem sabia estar acontecendo, olhou sua blusa amarela e sentiu um arrepio, como se alguém lhe cochichasse um segredo triste nos ouvidos. Lembrou dele, não tinha como não lembrar. Toda vez que ficava triste, ele completava a música...

4,5,6 roxo.....

terça-feira, 27 de outubro de 2009

A LONG SAD NIGHT

Ele deitou ao meu lado em silêncio, com aquele olhar redondo e compreensivo de um bicho sem maldade.

Encostou a ponta do nariz no meu, na tentativa que eu parasse de chorar.
Chorei mais.
Ele se encolheu no seu lado da cama e ficou ali, esperando a tristeza passar, o telefone tocar, algo acontecer, mas não aconteceu nada.

Peguei o relógio, já era uma da manhã.
Ele, ainda acordado, já tinha dado várias voltas pelo quarto, ido até à cozinha tomar água, e nada de dormir.
Ele sempre fica assim quando sabe que eu estou triste de verdade, e agora me lembro de não lembrar de alguma vez que ele tenha me deixado só em noites de chuva nos olhos.

Ele senta no pé da cama e continua me olhando. Sento na cama também e faço um carinho em sua cabeça:

-Pode dormir, meu querido, a noite vai ser longa.

Ele finge que não escuta e deita em meu colo, e eu tenho certeza que se ele soubesse o que dizer com certeza eu não teria chorado até de manhã.

Dizem que o melhor amigo do homem é o cão, mas o meu com certeza é o gato.

Dissimulados como nós mulheres, e aguentam uma fossa feminina como ninguém.

Obrigada amiguinho!

(antes que perguntem, meu gato é um vira-lata laranja de 4 anos e o nome dele é Panetone) \O/

sábado, 17 de outubro de 2009

Mazel Tov, Tarantino!


Logo depois de assistir a Bastardos Inglórios, do Tarantino, mandei uma mensagem para o Vianna, um amigo produtor de literatura pulp, dizendo:

"O Tarantino passou dos limites".

Eu esperava assistir um filme provocante, cheio de associações cinematográficas, violência, uma boa quantidade de sangue, uma loira de olho azul assassina estilão femme fatale e diálogos desconcertantes. Que nada, é muito mais do que isso.

Você reconhece que é um legítimo Tarantino logo nos primeiros segundos de filme, que aparece dividido em capítulos com aquela trilha western ao fundo e um diálogo TENSO logo de cara para já dar noção ao público o que está por vir.

O roteiro é impecável, e o enredo prende a atenção até o fim, arrancando gargalhadas e fazendo as pessoas se mexerem nas cadeiras do cinema de tanto nervosismo! (Se você ouviu todo mundo falar no filme, viu no jornal que demora 2:30h e ficou com preguiça de ir ver porque acha que Tarantino é filme cult chato, pare de ler essa crítica agora e vá ver Sessão da Tarde)

Os atores, sem comentários. O não mais pouco conhecido Cristoph Waltz roubou quase todas as cenas com o personagem Hans Lada, quase um Holmes nazista e poliglota. Fiquei um pouco apreensiva pelo Brad Pitt, mas não é que o "ragazzo" veio a calhar? Ótima atuação também para o "Urso Judeu", o Eli Roth, nunca mais vou olhar para um taco de beisebol sem lembrar dele.

Uma escritora carioca, a Ana Paula Maia, definiu o olhar dele como "negro". E é realmente incrível como nas poucas vezes que ele apareceu, deixava transparecer sem quase falar nada a história de um povo, ódio, vingança e realização.

A judia Soshanna interpretada pela Mélanie Laurent tinha os exatos olhões lacrimosos e cheios de segredo que eu imaginava encontrar na personagem. Perfeita.

A comédia, o sarcasmo, as tiradas 70's e a trilha sonora são dignas de aplauso.

Mas nada de tudo isso dito acima foi mais espetacular que o final do filme: um chute no derrière da História, que, com todo o respeito, o Tarantino tinha todo o direito de fazer, já que a ficção existe justamente para ilustrar a imaginação, e não para corroborar mais uma vez no cinema a covardia nazista e a memória da desgraça sofrida pelo povo judaico.

Shalom!

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Lançamento da Revista Lama - um sucesso



Caros amigos e leitores!
O lançamento da Revista encheu o Café Quintana na noite de ontem!
Artistas, leitores, curiosos, simpatizantes, extraterrestres (não exagera), todos lá para conferir o trabalho da trupe de escritores e ilustradores que resultou na bela Lama.
Coisas peculiares do lançamento, a meu ver:
-É muito bizarro conhecer várias pessoas virtuais ao mesmo tempo. Você faz aquela cara de "Ah" e já está conversando coisas pessoais com quem você nunca viu na vida em menos de 5 minutos.
-Vinho nunca é demais. Ainda mais quando é Lambrusco. O Gusso, um dos ilustradores da revista, me acompanhou na saga boêmia. Muito simpático e cordial para um curitibano. É, eles existem.
- Outra pessoa MUITO bacana que sempre ouvi falar e só conheci ontem foi o Leprevost. Intelectual típico, mas sem aquelas alucinações egocêntricas típicas dos mesmos. Um amor de pessoa.
-O Fabz, o editor, eu nem sei escolher palavras para ele. É uma figuraça pop local sem precedentes.
-Tinha bastante gente pra um evento literário. Ficamos felizes.
-E o mais importante: a revista ficou infinitamente melhor do que eu tinha imaginado. É, pessoal, deu certo.
Abaixo algumas fotos do evento.
E ah. Lançamento em São Paulo na Livraria POP, dia 21/10.
Lançamento no Rio no Cinematec, dia 14/11.
Aguardo vocês!







quarta-feira, 7 de outubro de 2009

entre meninas

Limpei as mãos na toalha branquinha do banheiro, ficou parecendo a bandeira do Japão com aquele círculo vermelho no meio.

Engraçado, o meu sangue não é clarinho assim.
Será que ela era doente?
Bom, se era, não precisa mais se preocupar com isso.

Antes de sair do apartamento, dei uma olhada para trás e a cena não me agradou.
Por causa da luta o apartamento ficou uma bagunça, credo.
Arrumei as almofadas, varri os copos quebrados, limpei a parede.
Ajeito o corpo dela no chão com as mãos para trás da cabeça, as pernas fazendo um L, ficou bem imagético. O rosto inclinado para cima, que nem a Ingrid Bergman em "Casablanca". Pensando bem, ela está mais parecida com a Bergman em "Assassinato no Expresso do Oriente". É. Com certeza.

Saí de lá e fui na locadora pegar uns filmes policiais. É, eu tinha razão, o filme de 1974 tem bem mais a ver.

All apologies

Esqueci seu aniversário

Não foi por mal
Nem porque não te amo

A culpa é do calendário
Que te escondeu no meio do ano

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Pra variar, amor

O ódio que ele sentirá de mim depois disso é apenas um detalhe, e o tempo, inimigo diário e irrevogável, agora age a meu favor.
Nada resiste ao tempo.

Os que fazem da memória uma alegoria pensam assim, e por serem maioria, despeço-me da culpa diante do erro amável e irreversível que estou prestes a cometer por amor, e porque não, por vingança e esperança, as únicas bailarinas do espetáculo de dor que o meu palco de vida apresenta diariamente incessantemente incansável intragável chega.

Deitei ao seu lado e fiquei ali, muito perto, aspirando o resto de vida que lhe saía pelo nariz.
Pensei em beijá-lo, mas ia acordar e estragar tudo, a paixão nos deixa piedosos demais.
O único movimento feito por ele no momento da mordida foi um suspiro seguido de arrepio que lhe tensionou as pernas e os dedos do pé.
Por experiência e cuidado -só o temos com quem vale a pena-, apenas uma gotinha delicada do sangue escuro que enguli caiu no travesseiro.
Não gostei disso.
Vestígios e crime passional não combinam.

Mal ele imaginava que ao acordar despertaria para a eternidade.
Sentei na beira da cama e imaginei quanto tempo demorará até ele saber que não é mais mortal. Talvez nunca descubra.
Conheço vampiros modernos que demoram a saber, essa história de que a gente sabe que é logo depois da mordida, fica com sede e sai à noite mordendo desconhecidos é tudo marketing de um idólatra repulsivo dessa nossa raça infeliz.
Confiro as horas no despertador do meu grande amor que agora terá todo o tempo do mundo para me redescobrir.
Sua família morrerá de susto, ao ver que ele não envelhece.
Rio tanto disso que quase o acordo.
Passo a mão em seu cabelo antes de sair pela porta da frente - isso de virar morcego não é seguro, minha gente, tem muita gente malvada (e assustada) por aí.
Ele parece calmo e distante, só por enquanto, meu querido.
O ódio que sentirá de mim não será maior que a força do tempo.
Entenda.
Não será.
Eu prometo, eu juro, eu te amo.

E eu, senhora deste amor, vou embora pois não demora pra essa dor sangrar, como diz a música.
Aquela, que o tempo também vai apagar.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

antes pó

casar por comodismo
a eterna e triste
piada

ao invés
do amor da sua vida,
uma almofada.

domingo, 20 de setembro de 2009

me mi comigo


solidão, nunca mais

hoje em dia
está na moda
ter transtorno bipolar

até seria
uma boa
ter companhia no jantar

sábado, 19 de setembro de 2009

Shaná Tová Umetuká!



Hoje é Rosh Hashaná, o ano novo judaico.
Coincidentemente, meu aniversário.
Eu achei um tanto cabalístico,
além do que o ano que começa é de 5.770,
e tanto 7 assim deve dar sorte.

Um ano doce de sorte e conquistas para todos.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Ratos e Sapatos (round 2 - fight!)

Em 14 de dezembro do ano passado, um iraquiano virou ícone de coragem e representou com maestria a vontade de tantos outros povos desse nosso mundão afora.

É, ele mesmo, o jornalista da sapatada no Bush, Muntadar Al Zaidi!


(Zaidi logo após o jab cruzado em direção à lata do cachorro velho)

Por conta da ocasião, escrevi um texto sobre ele, para quem não lembra ou não viu, é só clicar.

Por que voltamos ao assunto?

Ora ora, porque hoje é um dia especial!
Explico.

Logo após a sapatada, Zaidi foi preso e tomou chá de sopapos americanos durante um bom tempo.

A pena prevista para ataques a líderes estrangeiros é de 03 anos, segundo a lei iraquiana. Acho que não seria de tanto tempo assim se eles soubessem que o Bush ia ser um dos alvos.


(um pouquinho mais pra direita, Zaidi!!!!)

Mas enfim.

Conversaram dali, diminuíram daqui, e hoje, 15/09/09, nove meses depois da parábola quase perfeita (só não foi porque o que o Zaidi tem de coragem, o Bush tem de ginga e desviou da sola 42), tchanaaaaam!

SOLTARAM O JORNALISTA!


(Muntadar abraçando a irmã hoje, logo após ser libertado)

Tem gente dizendo por aí que o rapaz tem felicidade garantida até o resto da vida. São presentes, propostas de emprego, casamento, etc etc etc.

Que felicidade é essa que pensam existir, eu me pergunto.
Nada irá pagar a tortura, maus tratos e perseguição gratuitos que o povo e o próprio Muntadar sofreram durante tanto tempo pelas mãos da "potência e prepotência" do Tio Sam.

Em nome de um povo, foram-se os sapatos, fica a dignidade.
E mais uma vez o nosso muito obrigado a Muntadar. Você é o cara!

Enquanto isso, na sala de justiça...ops! Eu falei justiça?

Debaixo das palmeiras tupiniquins e dos panos do Senado, um vilão brasileiro desponta no nosso céu de anil.

E, no mesmo país que tirou um presidente por impeachment no auge de sua democracia, agora tudo é silêncio.
Do lado de dentro da casa sagrada da Capital, é claro.
Coronelismo pós-moderno, sim senhor!
São os novos tempos.
Aqui é assim, você finge que não viu, que eu finjo que não fiz.
Pode ser?

Enquanto isso, ele brinca de Muntadar.


( Nos jornalistas não, Lula! É no Sarney!)

E dá-lhe pizza.

domingo, 13 de setembro de 2009

Revista Lama #1

video

A revista Lama, através de um esforço coletivo, pretende instigar a produção de uma literatura pulp brasileira. Os escritores e ilustradores deste exemplar criaram seus contos de horror, suspense ou realismo fantástico com completa liberdade temática. O resultado englobou temas bem distintos, criando assim uma edição muito interessante. Criaturas, psicopatas, vampiros, detetives. Todos estão presentes. Do terror ao suspense. Do realismo fantástico ao horror inimaginável.

Editor
Fabiano Vianna

Produtora
Milena Buzzetti

Jornalista
Ana Paula Cardoso

Logotipo
Estudio Mopa

Design
Flávia Terezinha Vianna
& Michel Bernardes de Jesus


Escritores
Ana Paula Maia
Fabiano Vianna
Luiz Felipe Leprevost
Assionara Souza
Martha Argel
Giulia Moon
Daniel Gonçalves
Rodriane DL
Gisele Pacola
Simone Campos
Emanuel R. Marques

Ilustradores
Pianofuzz
Francisco Gusso
Daniel Gonçalves
Yan Sorgi
Mopa
Bruno Oliveira
Sueli Mendes
Firmorama
Colletivo

LANÇAMENTO EM BREVE!!

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

le gris printemps

dias tristes de chuva
em estilo
retrô

com bombom,
bom champagne
e Brigitte Bardot

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

tropeço

no meu caminho não tem pedra, não.
passo tempo demais
sendo a pedra dos outros.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

tuas palavras de crochê
ao pé do meu ouvido

costuram às minhas horas
um fio doce de arrepio

amor
tecido

conto de fadas é foda

um, dois, três
amarelo

sem príncipe
nem sapo

a típica princesa urbana
come miojo e paga aluguel

sozinha no castelo

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

enteomania

mania absurda
de querer
salvar o mundo

meu eco verde
anda um tanto
ego-lógico

vie de fou

eu sou daquelas
que tenta
abraçar o mundo

quero pra ontem
a vida inteira
em um segundo

terça-feira, 25 de agosto de 2009

quem me dera
nascer e morrer
na mais pura ignorância

e não entender a importância
disso tudo
que vocês dizem
fundamental

quem me dera
ser a esfera
de uma bolha de sabão

sábado, 22 de agosto de 2009

Poe's night

give me a reason
to live

this sadness
and loneliness

don´t want to
forgive me

quarta-feira, 5 de agosto de 2009



Oh bandeira brasileira!
Um dia te amarro na cabeça
E saio fazendo besteira!

domingo, 2 de agosto de 2009

Hai mas não kai



é estranho
busco luz quando o corpo gela
encaixo num quadrado de sol
no resto que sobrou da janela

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Dos milagres

nos cantos
das pequenas coisas
é onde eles acontecem

enxerga quem quer
recebe quem merece
merece quem quiser

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Dos silêncios

abro os olhos e vejo que o carro está de cabeça para baixo não consigo virar o pescoço cadê meu filho preciso me concentrar calma 1 2 3 preciso sair daqui abro a janela me arrasto me corto no vidro o outro carro todo quebrado também maluco desgraçado meu filho no meio da estrada ai meu deus está morto filho filho o motorista ele me chama desesperado pede socorro tento alcançar meu filho consegui está morto mesmo e agora o que eu faço meu deus ele me chama de novo eu me arrasto até ele a estrada está vazia ele pede socorro pede desculpas eu me aproximo e puxo sua cabeça para fora do carro ele agradece chora eu ponho a mão na sua boca e tranco seu nariz ele se debate e se debate eu não consegui me despedir do meu filho e fico quieta ali matando o tal do motorista devagarinho ele ia morrer mesmo ele consegue soltar um som pela boca eu aperto mais a mão e digo

-Shhhh quieto. Quieto.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Roads

Atravessei o quarto vazia sem saber que ele e seu sorriso esparramado me observavam da sala. Perguntou-me se havia algo errado.

Sorri.

Girei a aliança no dedo e tirei para ver o nome gravado, e ele me encheu de perguntas, como sempre, como sempre.

-Vai limpar? O nome está certo? Está apertada?
-Não, amor.

Ele senta para ler seu livro diário livro e me sorri mais uma vez.

-Linda, sabia que eu te amo?

Recolho as roupas da cama e sorrio de novo.

As pessoas entendem o que querem entender.
Quase ninguém presta atenção nas frases.
Na construção das próprias frases.
Eu respondi que não.
E mesmo assim ele sorriu.

As pessoas entendem o que querem entender.
Fazer o quê.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Samba em Fá Menor



Essa solidão deixou
Teu nome escrito
Com letras de espinho
Nas paredes do meu coração

Ah meu Deus quanta dor

E agora, amor? E agora...
Que a tua demora fez meu peito
Se encher de dor
(é a saudade)

A tua ausência costurou minhas horas
Ontem, amanhã e agora
É tristeza que não tem mais fim.

Ele mora perto da lagoa
E eu moro pertinho do mar
Ele toca uma bossa
E eu uma chanson française pra lhe agradar

Distância, lembrança
Saudade de um dia que insiste em cantar
Carrega meu hoje pra longe
Quando aparece sem avisar

A cor do calor dessa dor que eu disfarço no peito
Tem o mesmo tom dessa canção que lhe fiz
A saudade que canto é mais perfeita em tua voz
Entre os espaços que viraram nós.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Eu nasci....há 20 anos atrás

Não me assustei com a pedra que quebrou a janela da minha sala porque morar no térreo no bairro da Lapa, aqui no Rio, tem dessas.

Um bando de bêbados brigava por uma garrafa de pinga vazia, que, imagino, imaginavam cheia. Seria até engraçado de ver se eu tivesse dinheiro para consertar a janela, quebrada pela pedra do caminho do Drummond que agora era meu.
Né. Mas enfim.

Fato foi que nem a janela nem os bêbados nem a dita cuja da pedra me incomodaram, mas sim a baderna toda ter acordado minha mulher, que precisava acordar cedo e chacoalhar até o outro lado da cidade numa condução.

Fui até à porta dar um fim na bagunça, e ela sentada na cama com a mão enfiada nos cabelos castanhos me sorriu, e disse: "Deixa, amor. Deixa".

Sentamos juntos na janela quebrada e ela suspirou dolorido, ainda era quarta. Olhei para o céu amarelado da luz boêmia e senti inveja dos que viam estrelas talvez dessa mesma sala que a minha.

Uma inveja distante de quem nasceu antes bem antes de mim, e não nesses tempos confusos conturbados cansativos demais. Eu aqui, com meus 20 e poucos anos, andaria de chapéu pelas ruas de Copacabana. Minha mulher cuidaria de nossos filhos, e não precisaria acordar tão cedo para trabalhar, porque a redação ia me pagar um salário decente, e não esse que agora, né.

A montoeira poluída de carros chatos e buzinantes, trocados pelo lirismo bucólico dos bondinhos. Aqui perto, nos Arcos da Lapa, ainda passa o único bonde ativo, o de Santa Tereza, que cruza o Rio do bairro para o centro, e que foi pintado de amarelo porque era verde e por isso costumava ser confundido com a vegetação do bairro. Acho que hoje isso não faz mais sentido.

Minha mulher voltou para a cama e eu sei que ela não ia conseguir mais dormir. E que amanhã ia ficar com olheiras e me sorrir conformada no café. Essa cena toda me entristeceu. Fiquei ali na janela de olhos fechados, pensando como poderia encontrar algum maluco maldito com uma máquina do tempo, onde eu pudesse levar minha mulher pra tomar sorvete com aquele vestido colorido dela num belo bondinho, onde ele fosse verde e se misturasse ao mato sim senhor e não pudéssemos mais voltar para cá, mas sim voltar para cada vez mais antes, e antes, a tempos de Tom, a tempos de José de Alencar e Machado, índios, vulcões e pterodátilos imensos sobre o Pão de Açúcar onde tudo seria doce e calmo e fim.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Um dia, por favor

Acordo antes que ele para ver se é por maldade ou por costume e o azedume de seus olhos rotineiros arrebentam o dia com seu canto eletrônico lambendo alucinado seus bigodes de alumínio O relógio na cabeceira da cama o porteiro do caos que atravessa os meus dias colados uns aos outros como colcha de retalhos onde deito meu cansaço de 5 em 5 minutos e queria tanto que fosse 10 mas ainda faltam outros tantos minutinhos para acabar o dia!

Um furacão um turbilhão é o passatempo do contratempo que me separa da realidade que me consome até o bagaço da laranja a minha metade está lá tão longe do outro lado do estado e eu aqui sozinha garimpando o dia à procura do ouro que tão breve não virá mas virá sim virá aguardem esperem nem que seja um pouquinho!

Entre um intervalo de um minuto e outro separo um pouco do tempo que restou daquele espaço de segundo que eu pisquei e guardei pra poupar mais um canto do tanto de sonho que sobrou do dia que eu agora me despeço e me deito e me desfaço aos olhos atentos do despertador que me espera para mais uma manhã

Amanhã.